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Democracia sobre rodas

12/02/2010 - Rodrigo Ribeiro - Fotos: Rodrigo Ribeiro e Divulgação / Fonte: iCarros

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Quem tem carro com controlador de velocidade sabe que poder dirigir com os pés no assoalho em longas viagens é um conforto adicional. Mas e se esta condição for compulsória e não uma opção? É o que os deficientes físicos enfrentam sempre que sobem para o banco do motorista de um carro.

“Certa vez, um cadeirante me disse que poder dirigir novamente foi a coisa mais importante que fez depois de perder o movimento das pernas”, afirma Raul Oliveira, gerente comercial da Cavenaghi, maior empresa de adaptações veiculares do País. “Mais que uma facilidade, poder conduzir o carro novamente dá a independência e a liberdade que a maioria dos deficientes físicos desejam”, aponta Oliveira.

Segundo o Censo 2000 do IBGE, 14,5% da população do Brasil sofre com algum tipo de deficiência – isso equivale a 24,6 milhões de pessoas, considerando os dados da pesquisa, feita há dez anos. Apesar de não haver índices sobre os carros adaptados para Pessoas Portadoras de Deficiência (PPD) no Brasil, os 500 carros adaptados vendidos por mês na Cavenaghi em São Paulo apontam para um volume crescente no segmento. Com demanda maior, a oferta também sobe: somente para o motorista, existem mais de 14 tipos de adaptações para permitir a condução do veículo. “Além dos sistemas já existentes, podemos fazer adaptações especiais de acordo com a necessidade do deficiente”, revela Abner Chamelet, proprietário do Auto Center Abner, especializado nesse tipo de serviço.

Com tantas opções, às vezes pode ser difícil escolher a mais adequada. Para avaliar dois dos tipos mais frequentes de adaptações – e relatar os problemas mais comuns encontrados nos carros – convocamos Alessandro Fernandes. O mineiro de 36 anos ficou paralítico em 2006, após um acidente de moto. Desde então, ele relata suas dificuldades em seu blog, além de avaliar carros adaptados, como fez especialmente para o iCarros. Confira seu relato a seguir.

Fiat Palio 1.0 2007Adaptações utilizadas: embreagem automatizada, pomo giratório no volante e Comando Manual 70 Graus para acelerador e freio
“Essa foi a primeira vez que dirigi um carro manual após meu acidente e estava muito curioso para saber como me sairia. A primeira boa impressão que tive foi na transferência para o carro, que é duas portas e facilita muito, principalmente pra quem é alto como eu (1,95 metros). Entrar no carro foi moleza, dá até pra deixar a cadeira um pouco mais para trás para que os joelhos não esbarrem na porta. Mas o espaço interno do Palio não ajuda muito (são 2,37 metros de entre-eixos) e passar as pernas por baixo do volante demanda certo trabalho. Mas é no porta-malas que se encontra o maior problema para quem é cadeirante: é muito pequeno – 290 litros –, obrigando a (às vezes complicada) desmontagem da cadeira de rodas.

Para acelerar o carro, basta puxar a alavanca que fica à esquerda do volante, enquanto a frenagem é feita empurrando a mesma. O sistema é mais confiável que mecanismos que aceleram através de um cabo, que pode estourar e deixar o deficiente na mão, como já aconteceu comigo.

A operação da embreagem é simples: ao colocar a mão sobre a alavanca (que funciona como em qualquer carro manual), o sensor aciona o pedal, que é solto gradualmente conforme se acelera. Os dois temores que eu tinha em relação a este sistema foram eliminados: acreditava que o carro fosse morrer se não acelerasse na hora certa e que o fato de tirar a mão do volante comprometesse muito a segurança, já que a outra mão fica na barra de aceleração/frenagem. O motor não morre porque o sistema é dependente da aceleração e a segurança é garantida pelo tipo de barra de aceleração, com empunhadura a 70º, em que a mão fica bem próxima ao volante, permitindo segurá-lo sem tirar a mão da barra.

Renault Scénic 2.0 2009 AutomáticoAdaptações utilizadas: Comando Manual Confort
Apesar de já conhecer o modelo, foi a primeira vez que dirigi um carro com o sistema CMC. O diferencial do mecanismo é que a aceleração é feita empurrando a barra ao lado do volante para baixo, ao invés de puxá-la – o que pode gerar cansaço em viagens mais longas. Por ser importado, ele é caro (R$ 2.070), mas vale a pena para quem não tem carro com piloto automático, pois o braço fica apoiado nas pernas durante a condução. Por você manter sempre uma mão fora do volante, o CMC não pode ser instalado em carros com embreagem automatizada, como o Palio.

Para entrar no carro, as primeiras dificuldades para um cadeirante: a porta pequena não permite me aproximar corretamente do banco, que é alto. Sem ponto de apoio, quase me desequilibrei na hora de entrar na minivan. Outro defeito comum na maior parte dos carros é a trava da porta na coluna B, que machuca as costas durante a transferência.

Por dentro, há espaço de sobra, um alívio para pessoas altas. O porta-malas é igualmente generoso, e o modelo testado tinha um guincho elétrico, essencial para carregar as pesadas cadeiras de rodas elétricas. A Scénic é suave na hora de dirigir, graças à direção hidráulica e ao câmbio automático. Pena que uma de suas virtudes (posição elevada de dirigir) também seja seu maior defeito. Já existem sistemas que movem o banco do motorista para fora e para baixo, mas os custos ainda são proibitivos.

Veredicto de Alessandro Fernandes: Assim como todos os carros adaptados, ambos os modelos que dirigi podem ser conduzidos por pessoas sem deficiência, o que evita dores de cabeça com manobristas. As adaptações do Palio são mais indicadas para quem não quer se desfazer de seu carro manual ou gosta de trocar as marchas. Por ter preço elevado (R$ 3.490), o sistema supera o valor cobrado pelos principais automatizados do mercado (Dualogic, da Fiat e iMotion, da Volkswagen) e nem sempre pode valer a pena. Já a Scénic, apesar dos problemas na hora de entrar e sair, é confortável, assim como a adaptação CMC. Boa opção para quem tem um poder de compra maior.


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